- 17 de junho de 2026
América Latina avança com uma agenda conjunta para aprimorar a abordagem de doenças de pele imunomediadas
Os resultados de um dos estudos mais abrangentes
realizados até o momento sobre doenças de pele imunomediadas na América Latina
foram apresentados no Encontro Anual de Dermatologistas Latino-Americanos
(RADLA), revelando profundas disparidades sociais e de saúde.
De acordo com um relatório, 61% dos pacientes
afirmaram ter consultado entre dois e seis especialistas antes de receberem um
diagnóstico correto e esperaram entre dois e dez anos por esse diagnóstico.
Além disso, 40% relataram ansiedade ou depressão, 53% disseram ter se sentido
estigmatizados e quase um terço reconheceu ter dificuldades significativas para
realizar atividades diárias.
Os resultados foram apresentados pela Coalizão
Latino-Americana de Pacientes com Doenças de Pele (COLAPPIEL), em conjunto com
a Associação Civil de Pacientes com Psoríase (AEPSO), e o simpósio “Dados
Latino-Americanos que Ninguém Ainda Conhece: Evidências da Vida Real e Trabalho
Colaborativo em Doenças de Pele Imunomediadas” reuniu especialistas médicos,
associações de pacientes e organizações internacionais para destacar as
principais barreiras enfrentadas pelos pacientes na região no acesso ao diagnóstico,
tratamento e acompanhamento de doenças como psoríase, dermatite atópica,
hidradenite supurativa, urticária crônica, vitiligo e alopecia areata.
Durante a abertura do encontro, Silvia Fernández
Barrio, presidente da AEPSO e membro do conselho diretor da IFPA (Federação
Internacional de Associações de Psoríase), explicou que a iniciativa surgiu
para “fazer com que todo o sistema compreenda o impacto das doenças
dermatológicas e pare de considerá-las insignificantes, passando a mostrar, de
fato, o enorme impacto que essas doenças têm sobre as pessoas”. Um dos temas
centrais do encontro foi a apresentação da pesquisa regional realizada pela
COLAPPIEL entre 2023 e 2024. Essa pesquisa inédita, devido ao seu alcance,
incluiu 3.538 pacientes de 14 países da América Latina e foi realizada por meio
de contato direto e mídias sociais, com a colaboração de organizações de
pacientes em toda a região. A Argentina foi o país com o maior número de
respostas, seguida pela Colômbia, Brasil, Equador e Uruguai.
Outras conclusões do estudo
A pesquisa também revelou lacunas significativas em
informação e apoio. 62% dos pacientes relataram não ter recebido informações
suficientes no momento do diagnóstico e 75% indicaram não ter recebido apoio
psicológico, embora a grande maioria tenha expressado o desejo de ter tido
acesso a esse apoio. Além disso, mais da metade dos entrevistados indicou que
seus familiares ou amigos não compreendiam totalmente sua condição.
Outra descoberta preocupante foi a interrupção do
tratamento e as barreiras de acesso aos cuidados. Treze por cento dos pacientes
levaram entre três meses e um ano para efetivamente ter acesso à medicação
prescrita, enquanto 6% relataram não ter recebido nenhum tratamento até o
momento da pesquisa. Além disso, 74% afirmaram ter abandonado tratamentos
anteriormente devido à falta de eficácia.
“A exigência burocrática de ‘tentativa e erro’ muitas vezes atrasa a eficácia clínica”, explicou Martín Petrocco, diretor executivo da AEPSO e coordenador do COLAPPIEL, que também detalhou que quase metade dos pacientes admitiu ter recorrido a medicamentos alternativos. Sobre a interrupção ou o espaçamento dos medicamentos, ele disse: “O que observamos é que um ciclo que deveria ser mensal se torna um de 40, 45 ou 50 dias. O paciente percebe que está em tratamento porque está recebendo um medicamento, mas talvez a dosagem ou o espaçamento não sejam os adequados”.
Uma Aliança para Pacientes
Durante o encontro, foi anunciada a assinatura de um acordo. Este acordo, firmado durante o recente Congresso Pan-Americano de Reumatologia (PANLAR), foi assinado por representantes do Conselho Internacional de Psoríase (IPC), da Federação Internacional de Associações de Psoríase (IFPA), da SOLAPSO (Sociedade Latino-Americana de Psoríase) e do PANLAR. Seu objetivo é colaborar com associações de pacientes da América Latina e da Pan-Americana, bem como com associações membros do IPC, para abordar os desafios enfrentados por pessoas com psoríase e artrite psoriásica.
A Dra. Claudia de la Cruz, vice-presidente e
presidente eleita do IPC, explicou que a aliança visa reduzir as lacunas de
acesso e desenvolver uma estratégia regional baseada em cinco pilares
fundamentais: conscientização, defesa de direitos, pesquisa, educação e uma
abordagem multidisciplinar.
“Nosso objetivo é melhorar o reconhecimento precoce dos sintomas e reduzir os anos de atraso no diagnóstico que milhares de pacientes na região ainda enfrentam. Sabemos da importância da intervenção precoce”, explicou a especialista, que também enfatizou a importância de fortalecer a voz dos pacientes e promover o acesso oportuno e equitativo ao diagnóstico e tratamento.
“Na América Latina, temos os medicamentos
disponíveis, mas esses medicamentos chegam aos pacientes que precisam deles?
Acredito que a resposta seja um unânime não”, acrescentou. Em relação à
educação médica, ela destacou a importância de focar no treinamento específico
para a atenção primária, a fim de facilitar os encaminhamentos precoces e
prevenir a progressão da doença.